A Rota do Vinho começa muito antes da primeira taça
- Thatiana Pompeu

- 31 de jul.
- 3 min de leitura

Enquanto muitos enxergam uma vinícola como um destino, a ONU Turismo propõe uma visão diferente: ela deve ser o ponto de partida para uma jornada. Foi essa a reflexão apresentada durante um dos painéis do Fórum da ONU Turismo sobre Enoturismo e Rotas Turísticas, acompanhado pela equipe do Onde na Cidade.
A palestra foi conduzida por Daniel Nepomuceno, diretor de Novos Negócios e Parcerias Público-Privadas (PPPs) do Escritório das Américas da ONU Turismo e ex-secretário executivo do Ministério do Turismo. Em sua apresentação, ele mostrou como diferentes países vêm utilizando as rotas do vinho para impulsionar o desenvolvimento regional, fortalecer pequenos produtores e criar experiências capazes de ampliar o tempo de permanência dos visitantes.
À primeira vista, o conceito parece simples: conectar vinícolas por meio de um roteiro. Na prática, a proposta é muito mais abrangente.
Uma rota turística não é uma estrada que liga cidades. É uma rede de experiências construída a partir da identidade de um território. Ela aproxima produtores, restaurantes, hotéis, cafeterias, queijarias, olivais, artesãos, guias de turismo, espaços culturais e empreendedores que compartilham a mesma história.
Essa visão muda completamente a forma de pensar o turismo.
O visitante deixa de percorrer quilômetros apenas para conhecer uma vinícola. Ele passa a descobrir uma região, conversar com quem produz, experimentar sabores locais, caminhar por paisagens que contam a história da agricultura e compreender por que aquele lugar é diferente de qualquer outro.
Ao ouvir essa proposta durante o Fórum, foi impossível não pensar na Serra da Mantiqueira.
Poucas regiões brasileiras concentram uma diversidade tão rica. Vinhos de inverno premiados internacionalmente dividem espaço com cafés especiais reconhecidos entre os melhores do mundo. A produção de azeites cresce em qualidade e prestígio. Queijos artesanais, mel, cervejas especiais, gastronomia autoral, hotéis de charme, fazendas históricas e paisagens de montanha completam um cenário que já desperta o interesse de visitantes de todo o país.
O patrimônio mais valioso da Mantiqueira, porém, não está em um único empreendimento.
Está na conexão entre todos eles.
Quando uma vinícola recomenda um restaurante local, quando um hotel indica uma fazenda produtora de azeite, quando um café especial leva o visitante a conhecer uma pequena queijaria ou um produtor de mel, nasce uma rede de colaboração capaz de fortalecer toda a economia regional.
Esse é um dos princípios defendidos pela ONU Turismo: o desenvolvimento acontece quando os destinos deixam de competir entre si e passam a construir uma identidade compartilhada.
Talvez esse seja o momento vivido pela Mantiqueira.
Os elementos já existem. Os produtores conquistam reconhecimento nacional e internacional. A gastronomia se fortalece a cada ano. O turismo cresce impulsionado pela autenticidade da região. O próximo passo pode ser justamente integrar essas iniciativas em uma narrativa comum, capaz de transformar uma viagem em uma experiência completa.
Não se trata apenas de criar uma rota do vinho.
Trata-se de construir um território onde cada cidade contribua com sua vocação, cada produtor conte sua história e cada visitante descubra que a verdadeira riqueza da Mantiqueira está na soma de todas essas experiências.
A Serra da Mantiqueira já mostrou que sabe produzir vinhos de excelência. Agora surge uma oportunidade ainda maior: tornar-se referência na forma de receber, conectar pessoas e valorizar tudo aquilo que faz da região um lugar único.
A pergunta que fica é simples: estamos preparados para construir essa rota juntos?



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