Entre um café e um pão de queijo, Lurdinha me contou a história do Empório Paganini & Palermo...

Em Espírito Santo do Pinhal, uma família transformou memórias, receitas, trabalho no campo e uma antiga casa em uma experiência de turismo rural que continua sendo construída por diferentes gerações.
Foi entre um café e um pão de queijo que comecei a conhecer a história do Empório Paganini & Palermo.
Lurdinha contou tudo do jeito de quem não decorou uma apresentação, mas vive aquilo que está narrando. Vieram os nomes da família, as lembranças, a agricultura, a casa, as receitas, as dificuldades e as ideias que foram surgindo pelo caminho.
A conversa começou no passado, mas rapidamente chegou ao presente.
E foi assim que entendi que o Paganini & Palermo não começou como um empreendimento turístico.
Antes dele, havia uma família vivendo naquela terra.
Antes do Paganini, havia a família
As famílias Paganini e Palermo chegaram à região de Espírito Santo do Pinhal no início do século XX. A vida foi construída no campo, entre agricultura, trabalho e família.
A casa, os objetos e muitas das receitas que hoje fazem parte da experiência do visitante pertencem a essa trajetória.
A disposição para encontrar novos caminhos também vem de longe. Lurdinha conta que seu pai, além da atividade agrícola, chegou a comprar uma máquina para beneficiar arroz e prestava o serviço para outros produtores da região.
Anos depois, ela própria encontraria uma nova possibilidade para aquela propriedade.
Quando a propriedade virou destino
A ideia começou a ganhar forma quando Lurdinha e Adriano buscaram alternativas para agregar renda à propriedade.
Foi nesse período que fizeram um curso de Turismo Rural pelo SENAR.
O curso mudou a maneira como passaram a enxergar o lugar onde viviam.
A propriedade, que até então fazia parte da rotina da família, poderia também receber visitantes.
A ideia inicial era atender os romeiros que participavam da Festa de Santa Luzia.
O espaço que a família chamava de “ranchinho” começou a receber pessoas. Primeiro veio o café colonial. Depois, o almoço, novos produtos, novas formas de receber.
E o que começou pequeno foi crescendo conforme a família entendia o que os visitantes procuravam.
O Empório Paganini & Palermo foi tomando forma assim: sem abandonar o que já existia, mas encontrando novos usos para a própria história.
A comida que veio da família
Quando Lurdinha fala sobre o Paganini & Palermo, a comida aparece naturalmente.
Não apenas como produto, mas como memória.
As receitas da Nona atravessaram gerações e chegaram à mesa no café colonial. Bolos, pães, doces, geleias, queijos e outras preparações carregam sabores que fazem parte da história da família.
E existe algo curioso quando uma receita de família chega à mesa de um desconhecido.
Ela pode deixar de ser apenas uma receita.
Pode fazer alguém lembrar da própria avó, da infância ou de uma cozinha que já não existe.
Talvez seja justamente aí que a comida ganhe outro significado: quando uma memória familiar encontra a memória de quem está sentado à mesa.
A casa também conta
Depois de ouvir Lurdinha falar dos antepassados, das receitas e da família, olhar para a casa muda.
Os móveis, fotografias, utensílios e objetos antigos não estão ali apenas para decorar.
Eles fazem parte daquela história.
Mas existe uma diferença entre observar um objeto antigo e ouvir alguém explicar por que ele está ali.
No Paganini & Palermo, a história não está somente nas coisas.
Ela é contada pelas pessoas.
É Lurdinha quem dá contexto aos objetos, às receitas e aos acontecimentos. É a família que transforma uma antiga casa em um lugar onde o visitante consegue imaginar um pouco da vida que existiu ali.
Do café à uva
A propriedade continua produzindo.
O café faz parte dessa história. Adriano participa do processo de torra e moagem, e o produto já conquistou clientes que levam o café para outras cidades.
Depois veio a uva.
E com ela, uma nova geração ganhou espaço.
Giovana, filha de Lurdinha e Adriano, é agrônoma e fez pós-graduação em viticultura. É ela quem conduz o trabalho relacionado às uvas e ao suco produzido na propriedade.
Essa talvez seja uma das partes mais interessantes da história.
Preservar uma tradição não significa congelá-la.
Lurdinha e Adriano encontraram no turismo e no contato com os visitantes uma nova forma de trabalhar com a propriedade.
Giovana trouxe sua formação e seu conhecimento técnico para dentro dela.
A terra permanece como ponto de encontro entre essas duas gerações.
Uma geração não precisa repetir a anterior para continuar a história.
O Paganini & Palermo não cabe apenas no cardápio
Depois de conhecer a história, fica difícil definir o Paganini & Palermo apenas pelo que chega à mesa.
A gastronomia é parte importante da experiência, mas existe também a casa, o café, as uvas, as frutas, os animais, a paisagem e, principalmente, as histórias da família.
Para as crianças, há o contato com animais, plantas, frutas e com um ambiente rural que muitas vezes está distante da rotina urbana.
Para os adultos, existe uma coisa cada vez mais rara: tempo.
Tempo para sentar.
Para conversar.
Para tomar café.
Para ouvir uma história.
Uma porta de entrada para Pinhal
Outro aspecto chamou minha atenção durante a conversa.
Lurdinha não fala de outros empreendimentos de Pinhal como concorrentes. Ela indica lugares para os visitantes conhecerem.
Restaurantes, vinícolas, cafés e outras experiências fazem parte das recomendações que dá a quem chega.
A lógica é simples: quem visita o Paganini & Palermo pode conhecer também outros lugares da cidade.
E isso coloca o empreendimento dentro de algo maior: a experiência de conhecer Espírito Santo do Pinhal.
O visitante pode chegar para conhecer uma propriedade rural e sair querendo conhecer também as vinícolas, restaurantes e outros atrativos do município.
Receber bem também tem seus desafios
Toda história bonita também tem seus desafios.
Com o crescimento, veio uma pergunta importante para a família: como receber mais pessoas sem perder justamente aquilo que construiu sua reputação?
Em um dia de grande movimento, perceberam que o excesso de visitantes poderia comprometer o atendimento, a comida e o acolhimento.
A experiência deixou uma lição.
Não basta aumentar o número de visitantes.
É preciso melhorar a estrutura, organizar reservas, preparar a equipe e encontrar uma maneira de preservar a proximidade no atendimento.
Porque, quando o acolhimento faz parte da experiência, ele também precisa ser cuidado.
Uma história que continua
O Paganini & Palermo não nasceu pronto.
Foi sendo construído.
Uma necessidade trouxe uma ideia. Um curso abriu uma possibilidade.
O café colonial trouxe os primeiros visitantes. As receitas da família chegaram à mesa.
O café ganhou espaço. A uva abriu um novo caminho. Giovana trouxe o conhecimento da viticultura.
E a casa continuou recebendo pessoas.
Hoje, diferentes gerações trabalham de maneiras diferentes, mas continuam ligadas à mesma terra.
Lurdinha continua contando as histórias.
Adriano continua cuidando de parte da produção.
Giovana escreve um novo capítulo a partir da agricultura e da viticultura.
E os visitantes chegam para experimentar aquilo que, durante muito tempo, fez parte apenas da vida daquela família.
Quando fui embora, fiquei com uma impressão simples:
o Paganini & Palermo não precisa inventar uma história para contar.
A história já está ali.
Na casa. Na comida. Na terra. No café. Nas uvas. Nas receitas.
E, principalmente, nas pessoas.
Talvez por isso a conversa tenha começado tão naturalmente.
Entre um café e um pão de queijo, Lurdinha não estava apenas contando como o Paganini & Palermo começou.
Estava contando como uma família continua encontrando novas maneiras de permanecer na própria história.

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